As ideologias são fenômenos religiosos. Mais precisamente, são fenômenos religiosos que fazem parte de uma categoria mais ampla: a idolatria. A ideologia é um tipo específico de idolatria.
A teologia judaico-cristã sempre denunciou fortemente a idolatria como um pecado gravíssimo. Isso porque a idolatria consiste em escolher um elemento da criação e o elevar ao nível da divindade, colocando acima da barreira que deveria separar o Criador da criatura. Quando esse elemento do mundo é divinizado, esperamos que ele nos traga salvação, segurança, conforto e shalom (paz), além de nos livrar do mal – porque é isso que esperamos dos deuses ou do Deus judaico-cristão.
A ideologia tem seu viés religioso porque transforma uma ideia importante em um ídolo, um deus imaginário, que procura sujeitar toda realidade aquela ideia deificada, prometendo “salvação” aos seus “seguidores”. A ideologia atribui status ontológico, como mal e salvação, a elementos intrínsecos da realidade. Elas identificam os bons elementos da realidade, mas superestimam esses elementos, enquadrando toda a realidade a partir deles, combatendo tudo que se opõem ao ídolo escolhido.
É possível perceber essa leitura idólatra da política nos posts políticos. Temos nossos messias, nossas crenças, nossos elementos de salvação e nossas fontes do mal. Nas redes sociais, não se discorda sobre ideias políticas: se briga ferozmente porque o que está em jogo é um deus-ideia. Ideias prontas, simplificadas, idolatradas.
Você não é simplesmente alguém que discorda de mim, mas alguém moralmente errado porque a minha ideia central é a verdadeira. Ela salva, redime. É um deus e, como todo deus, merece adoração e louvor. O componente idólatra na ideologia obscurece a visão. Ela enxerga elementos intrínsecos da realidade em si como fontes do mal. A partir daí, o debate passa a não ser sobre ideias, mas sobre moral.
Por que você não concordaria em ver a realidade redimida? Só há uma única explicação: existe uma falha moral em você. Uma vez que toda salvação consiste no resgate de algo pecaminoso, e uma vez que você não quer ser salvo, nem quer a salvação da realidade, talvez seja porque você faz parte desse mal.
Os elementos utilizados pelas ideologias não são completamente falsos; as realidades que eles apontam não são completamente criadas. Há realmente desigualdade, opressão, parcialidade da mídia, falta de segurança e de liberdade. Há realmente elitistas, anti pobres, machistas, racistas, intolerantes, vadios, aproveitadores e preconceituosos. O problema é que a idolatria é uma simplificadora excessiva da realidade. A realidade é mais complexa que uma única ideia central pronta. O que o componente religioso das idolatrias faz é colocar suas ideias como divinas, salvadoras, como chaves para a realidade redentora do amanhã.
Todas essas coisas, liberdade individual, igualdade, regras morais, são bons elementos da realidade. Merecem ser defendidos. Mas como eles foram divinizados, as pessoas procuram ler toda a realidade social e histórica a partir dessa única ideia central. E isso encaixa bem com as redes sociais, onde o meio incita a superficialidade. Afinal, ninguém tem paciência de ler um texto mais longo no celular; ou de refletir melhor sobre um fato em frente ao computador. Não há tempo para pensar e raciocinar: é preciso postar. Ser rápido. Opinar sobre tudo. E nada melhor que ideias prontas, simplificadas, idolatradas.
Ao abraçarem uma ideia central nas redes sociais, as pessoas constroem um alvo e querem que todos os elementos da realidade se adaptem a esse alvo supremo. Os fins justificam os meios porque é preciso chegar ao objetivo que meu deus impõe.
Quando as ideologias enquadram toda a realidade a uma ideia central, surge um problema: a realidade é maior que qualquer ideia central. É mais complexa. Mais difícil. Com mais variantes. Ela não é binária, mas cheia de nuances. Por isso, afirmava Hannah Arendt que toda ideologia possui um viés totalitário, uma vez que, ao tentar ler a realidade a partir dessa ideia suprema, seus integrantes buscam moldar a realidade de acordo com a lógica inexorável da sua preciosa ideia central. Nas redes sociais, se os fatos não concordam com minha preciosa ideia central, azar para os fatos.
Assim, pouco importa se faço distorções da justiça, da realidade, das ideias dos outros e até dos princípios que defendo. O importante é que, com minha ideia central implantada, o mundo de amanhã será melhor. Não é a justiça em si que está em jogo e que precisa ser defendida, mas minha ideia central.
Na teologia judaico-cristã, a ideologia sempre foi combatida porque ela trazia falsas esperanças. Apesar dos deuses serem falsos, eles tinham um poder sobre seus adoradores que os cegava. Paradoxalmente, mesmo não existindo, eles faziam as pessoas serem a imagem e semelhança deles.