As redes sociais podem nos levar à depressão?
As redes nos impactam de duas maneiras. A primeira é afetar nosso sistema de identificação: imagens, linguagem escrita, velocidade da relação. Gira em torno de quem sou eu, quem é você, quem somos nós. Segundo: nosso sistema de demanda. Aí uma novidade: tem sempre alguém nos esperando, nos oferecendo algo. Entramos numa espécie de deriva: “Cause o meu desejo, ofereça um objeto, um serviço, uma facilidade”, como se a gente fetichizasse nossa atenção. As redes criam a experiência de supor que nosso clique é importante. Isso causa uma deformação no tamanho do eu. Você pode afirmar: eu amo mais isso e menos aquilo. Produzimos ofertas e certa arrogância. E fetichizamos: “Dei um unfollow no cara!”. Gera uma macrocefalia egóica, porque o ego cresce sem verdadeira referência no outro. E o outro é importante para regular nossas fantasias. Então vem um terceiro processo, depois da identificação e da demanda: a criação do ódio. Seria natural passar do like, da simpatia, da afinidade, para um percurso de viagem comum. Amigos estão na mesma viagem, estão engajados. Quando você tem uma fidelidade, um compromisso, vem a questão: o que descobrimos junto? Este terceiro polo está ligado à intimidade, às noções de público e de privado. Você não consegue passar dos grupos de WhatsApp para experiências de solitude, de incerteza, de compartilhamento de coisas que você não sabe – ali você só compartilha certezas sem nuances. O que acontece com essa inflação do eu? Como os outros não respondem ao seu sistema de identificação, seu mundo diminui. Conforme o seu ego cresce, a empatia pelos outros some. Assim, você só consegue falar com os outros que falam igual a você. Daí você tem a política de identidade, e não de interesses, utopias, ideologias, futuros possíveis. Você vive numa bolha e acha que só ela existe.
E é assim que ocorrem os linchamentos virtuais?
Primeiro você infla ideais, e esse excesso é opressor. O discurso sobre a sexualidade no mundo virtual ou é de pornografia indecorosa ou é de um puritanismo malsão. Quando algo nos oprime, tem de ser destruído. É necessário um processo de idealização e também um processo de devoração dos heróis. Quando uma personalidade é desmascarada em razão de um pecado que vem à tona, se transfere para ela o oposto do amor que havia antes. “Quero puni-lo muito mais do que ele merece.” São funções ligadas ao narcisismo, que é uma função de defesa baseada no julgamento. Julgo o Outro e me coloco fora da roda, me coloco como juiz. Esta é uma autoavaliação constante quando se vai pra rede. E é uma espécie de droga. Preciso ficar julgando: curto, não curto, curto, não curto. E fico voltando à rede sempre, para reconstruir a minha identidade de juiz. Só que isso é uma pirâmide. Então acabo resolvendo as questões com juízos cruéis, intolerantes, moralistas. Em seguida vem a depressão, o sentimento de vazio, de mal-estar. Afinal, num mundo onde só há contrato, julgamento, vítimas e carrascos, cedo ou tarde eu também vou virar réu – pois esta é a regra do jogo.
Isso explica a polarização política nas redes?
Funciona assim: entre eu e você existe uma relação em que eu não te satisfaço e você não me satisfaz. Então vou brigar com você. Mas, na verdade, o problema não é você… é um cara lá fora. Aí, em vez de a gente pensar no que a gente tem em comum, que tal pensarmos em qual é o nosso inimigo? Precisamos nos purificar, porque no outro lado é que estão os ruins – aqui, eu e você ficamos numa boa. Precisamos então não decidir o que queremos, e sim reagir ao que os outros querem. Daí pensamos em como reagir com o petralha, o coxinha, o imigrante, o isentão… voltamos ao bode expiatório da tragédia grega. Vou bloquear a pessoa no Face, silenciar no Twitter, transformar o adversário em inimigo. O adversário não merece ter uma opinião contrária. Portanto pode ser destruído.
Mas, mais estridente que essa cultura do ódio, existe uma massa apática, as ruas não estão mais mobilizadas...
Na superfície existe o ódio, mas abaixo existe a vergonha. Aí você tem uma dissonância cognitiva. A pessoa se engana e sente vergonha. Foi enganada por um monte de lorota. Poxa, no fundo as pessoas têm algum sentimento crítico. De um lado tem uns caras enganados por uma esquerda que não fez o que queriam; de outro, caras enganados por um discurso contra a corrupção. A apatia e a imobilidade são causadas pela vergonha, que é um afeto introspectante: você esconde a cara, se fecha, não quer olhar. A vergonha desmascara a sua fantasia. Mostra como você é tolo, ridículo, infantil. Fica como criancinha enganada: “Enganei o bobo, na casca do ovo…” Assim surge o ódio.