Deveria haver um círculo do inferno especialmente reservado para os que não aceitam dialogar com quem pensa diferente. Para os que acreditam que, se a pessoa não compartilha da mesma opinião, não merece ser digna de interlocução. Se rolasse uma revisão geral em A Divina Comédia, de Dante Alighieri, sugeriria um inferno em que essas almas ficariam presas, pela eternidade, de frente a um Messenger, um WhatsApp ou um Google Talk com milhões de contatos postando as maiores aberrações, mas sem um teclado para que as almas condenadas pudessem responder.
Veja, creio que é o ó do borogodó só ter amigos e amigas que concordam com você. Há pessoas que parecem não aceitar serem questionadas. Desejam, ao contrário, uma boa claque. Talvez para afastar os medos e inseguranças sobre suas próprias crenças. Muitos simplesmente repetem mantras que lêem na internet, ouvem em bares ou vêem na igreja e não param para pensar se concordam ou não realmente com aquilo.
Somos seres complexos com múltiplos níveis de relações. Tenho colegas conservadores politicamente, mas liberais em comportamento que guardo em muito mais estima do que alguns colegas progressistas politicamente, mas com um discurso e prática comportamentais bisonhos.
É mais fácil pensar de forma binária. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos.
Sugiro que busquemos a tolerância no diálogo, mesmo que firme e duro, e nos perguntemos se achamos que estamos certos a todo o momento, uma vez que nossa natureza não é de certezas e sim de dúvidas.
As relações que se estabelecem no ”lado de fora” da internet ainda são uma das melhores formas de rompermos a limitação do contato com a diferença criada pelos algoritmos das redes sociais – que mostram em nossas timelines aquilo que gostaríamos de ver, tornando o mundo um lugar mais quentinho. O problema é que bolhas digitais matam, aos poucos, a empatia. E a falta de empatia faz com que o pedido de socorro de grupos sociais que não são nossos familiares ou amigos, aos poucos, se torne tão irrelevante quanto um pedido de amizade de um desconhecido online.